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A turma do António tem dois meninos com autismo. Num deles a perturbação é severa e o agrupamento só autorizou a inclusão dele na turma por os pais terem a possibilidade de pagar a uma psicóloga que o acompanha na sala durante o tempo todo (sei disto porque quando elogiei a felixibilidade do sistema público que permite a inclusão de duas crianças com necessidades específicas, a Professora me disse que tinha sido na sequência de uma árdua batalha dela e dos pais do menino em causa, versus o ministério da educação e mesmo a direcção do agrupamento). A dita psicóloga, a Inês, é uma jovem de vinte e muitos anos muito simpática de quem o António gosta muito e a quem conta a vida toda.
Quando hoje o fui buscar para almoçar, vinha cabisbaixo. ''Zanguei-me com a Inês'', disse. E eu, ''A sério? Queres contar-me porquê?''. Que não, era segredo.
Esperei, sabendo perfeitamente que antes do fim do intervalo ia revelar a razão da zanga. Assim foi. Apesar de estarmos sozinhos em casa, bichanou-me ao ouvido uma história muito rebuscada, de que não percebi grande coisa mas que deu para perceber ter sido uma insignificância. O que o estava a perturbar era ter rematado a conversa a dizer à rapariga que já não gostava dela.
Fui buscar uma barrinha de chocolate imitação de Kinder da marca Pingo Doce e sugeri-lhe oferecê-la à Inês, acompanhada de um beijinho. Ele ficou muuto contente com a ideia, guardou a barra, pensou um bocado e perguntou ''Mas o que é que eu lhe digo quando lhe der o chocolate?''. ''Então, dizes que já és outra vez amigo dela e que gostas dela''. Ele, indignado, ''Não lhe vou dizer isso assim, ela tem para aí 17 anos, não é uma miúda, não lhe vou dizer isso assim!''.
Ri-me, ri-me, ri-me e ele, meio desconcertado, ''ou 18 anos.''