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Esta língua que nos separa

por titi, em 28.03.13

Nos saudosos tempos em que não me escapava uma oportunidade de trabalho/estudo/passeio fora do país (e foram taaantas!) estabeleci-me por uma temporada de armas e bagagens na gloriosa cidade do Rio de Janeiro. Foram meses ma-ra-vi-lho-sos em que, acho que não exagero, esmifrei tudo, tudo o que de fabuloso a cidade colocava à minha disposição: varrer o mapa de boa parte da cidade (admito que com preponderância da Zona Sul mas não só), cinema, concertos, praia, teatro, livrarias, exposições, jornais, revistas, restaurantes, fazer amigos, conhecer gente. Vivi num hotel durante um mês, um sítio modesto em Botafogo, mas senti-me tão bem lá que foi com muita pena que saí. Lembro-me de que a primeira vez que me senti completamente em casa na cidade foi num dia em que vagueava à chuva pelo caos do fim da tarde na Avenida Nossa Senhora de Copacabana e ouvi um voz a gritar o meu nome. Era o recepcionista do hotel e eu pensei ''fogo, já encontro gente conhecida na rua!''. A cena repetiu-se uma data de vezes, lembro-me de outra em que ia a sair do sítio para onde fui estudar já a noite tinha caído, caminhava junto à grade do Jardim Botânico com muito pouca luz, passou um carro apinhado de homens tão escuros que quase não se viam contra a noite e, mais uma vez, uma voz - já não a suavidade da voz delicadíssima do recepcionista mas o estrondo do vozeirão do porteiro/segurança da escola: ''a sua amiga Catarina telefonou de Portugal!''. Se tivesse vivido esta cena no Porto, sentiria medo, no Rio esse pensamento nem me cruzou o espírito. De outra vez, quando os meus pais me foram lá visitar, andávamos a passear no calçadão de Ipanema depois do jantar e, again, várias vozes a chamar por mim, desta feita dos amigos portugueses que estavam a fazer um piquenique na praia. Eu estava mesmo em casa.

Não era sobre nada disto que eu queria falar mas quando me transporto a esses tempos (já disse que foram gloriosos?) não consigo controlar o curso das recordações. Ah, já sei, era isto que ia contar:

Na segunda etapa da estadia, mudei-me do hotel (e lembro-me tão bem da minha saída, de táxi cheia de malas, com o staff do hotel perfilado à porta a abraçar-me e a acenar) para um T0 em Ipanema que noutro dia tentei visitar via Google Maps com o meu filho para descobrir que o prédio estava em obras e completamente diferente. Num dia, por alguma razão de que não me lembro (para aí certificar-me de que haveria quem recebesse uma encomenda feita online), perguntei ao porteiro do prédio ''a que horas começa a trabalhar amanhã?''. Ele olhou para mim com estranheza ''oi?''. Repeti. Ele repetiu. Falei (ainda mais) pausadamente. Ele, incompreensão absoluta. ''A-que-ho-ras-co-me-ça-a-tra-ba-lhar-a-ma-nhã?''. Um lampejo de compreensão, depois estranheza, aquele medo que nos desperta um louco descabelado a interpelar-nos na rua ''a senhora quer saber quanto eu ganho???''.

Um dia destes volto ao Rio, aqui no blog e na vida real.

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2 comentários

De mo a 28.03.2013 às 11:11

Mais ou menos a propósito de línguas que nos separam, a mim, nos primeiros dias na Argentina falavam-me devagarinho e um bocado aos gritos, apesar de eu perceber razoavelmente o que me diziam. Só que ainda não respondia naquele espanhol... Aliás, falava-lhes com sotaque brasileiro, entendiam-me melhor (e ria-me por dentro, era muito cómico...)
Até que uma amiga local resolveu dar uma ajuda e dizer:
Ella es portuguesa, no sorda!

Beijinho, Boa Páscoa

De titi a 28.03.2013 às 14:15

Tens que pôr esta no blog, é demais! E fotos do sítio onde estão...

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