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Durante vários meses, Carmo Sousa Lima (psicanalista) e Vasco Araújo (artista plástico) conversaram sobre a infância e os mistérios que a tecem sem se deixarem ler; sobre a delicadeza; sobre o enigma que parece estar no coração de tudo; sobre a virtude da incerteza, a coragem, o fascínio da fragilidade; sobre os medos que cruzam a vida em todas as direcções. A obra em vídeo de Vasco Araújo – hoje uma referência central no panorama da arte contemporânea – inspirou muitas destas conversas. Sem que tivesse sido planeado, o livro revelou-se um surpreendente ‘statement’ sobre a experiência criativa de Vasco Araújo. Longos anos de experiência clínica, e um olhar de autora de poesia, atravessam cada linha deste livro. Olhada em conjunto, a conversa – com as suas hesitações, inseguranças, mudanças bruscas de direcção – reflecte sem o quererem, a experiência da vulnerabilidade com que os dois interlocutores vêem, de dentro, a vida. João Sousa Monteiro (psicanalista) colaborou na última, e mais extensa, conversa deste livro.
«Vasco: …O mundo é feito de coisas invisíveis, que quando se mostram são extraordinárias!
João: Mas quantos dos vivos estão vivos? O que é que, em cada um de nós, está vivo – ainda está vivo, já está vivo, nunca esteve vivo, nunca estará vivo, não queremos que esteja vivo? C. Péguy dizia que em cada novo dia, a coisa mais velha do mundo é o jornal da véspera, e a mais nova, a Ilíada. Quantos de nós somos apenas o jornal da véspera? Quanto de cada um de nós já se tornou no jornal da véspera, ou quantas vezes nunca foi outra coisa senão o jornal da véspera? Estou inteiramente de acordo em que é precisa imensa coragem para manter um olhar claro relativamente à vida. Mas não é exactamente o que mais nos falta a todos, coragem?
Carmo: …«ele há dias»… e nessa matéria – como em tantas outras – há dias que valem anos e anos que valem dias…»
Há coisas assim: ouvi a edição de hoje do Livro do Dia e soube imediatamente que ia amar este livro, não só porque a voz do Carlos Vaz Marques é capaz de fazer parecer boa a obra mais indigente mas também por me ter recordado da entrevista de que já aqui falei com a psiquiatra Carmo Sousa Lima, uma entrevista que re-ouço imensas vezes e me revela sempre uma espécie de imagem reflectida de mim. Vai daí, tive o livro na mão, folheei e ... não comprei. Tenho tanta dificuldade em adiar um prazer como este que desta vez resolvi tratar o livro com respeito em vez de me atirar a ele que nem uma besta da leitura. Vai esperar uma ou duas semanas. Ou até acabar o outro livro muitíssimo bom que tenho nas mãos. Este:
Da euforia que senti no dia em que, finalmente, passei no exame de condução. Disse aos meus pais que era o dia mais feliz da minha vida.
Coitada.