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Porque devemos ler alto às crianças

por titi, em 06.04.17

Sou uma chata com este assunto do ler alto às crianças. Talvez não neste blog - onde, por sinal, me tenho desmazelado - mas no outro blog em que escrevo as pessoas já não me devem poder ouvir com esta descoberta mais ou menos recente, nada trivial mesmo que pareça, de ler alto aos meus filhos pelo menos uma vez por dia. Amo. Não passo sem. Eles também não.

O que é giro é que este hábito, que actualmente faz parte da rotina da noite, às vezes do pequeno-almoço, e de outros momento do dia em que se proporciona, foi adquirido na sequência de um momento bastante difícil para mim: um dia, quando o Vasco tinha para aí 5 anos, apercebi-me de que eu, que quando o António era bebé, sabia de cor uma data de livros de tantas vezes lhos ler, não tinha memória da última vez que tinha contado uma história ao mais pequenino. Quando me apercebi disto, tive vontade de chorar.

Os meses que se seguiram ao nascimento do Vasco form muito difíceis lá em casa, por variadas razões. O facto de ele só ter começado a dormir uma noite seguida depois de fazer 6 anos não foi o mais insignificante deles. Quando penso nisso retrospectivamente, acho que se calhar até passei pela tal da depressão, que se pode manifestar de muitas maneiras, não é?

Enfim, a preocupação com a sobrevivência sobrepôs-se a tudo o resto e assim o meu querido filho chegou quase aos 6 anos sem a menor intimidade com os livros e a leitura. Juro que o momento em que tomei essa consciência foi um threshold, como se diz em estatística, uma fronteira que separou o antes de um depois que jurei que iria ser completamente diferente.

Passei uns dias a remoer o meu desgosto e lembrei-me mais uma vez do sábio conselho que a minha muito querida amiga Samicas (em tempos distinta colaboradora deste blog) me deu quando tive o primeiro filho: o segredo é fazeres com ele coisas que também te dão prazer a ti. Parece trivial? Sabedoria de alto nível.

Vai daí, em vez de ler ao Vasquinho um livrito para bebés que, na maioria, nunca me encheram as medidas (com muitas excepções, claro, por exemplo esta), comecei a ler-lhes o primeiro volume das Gémeas, um dos meus primeiros amores que muito me apetecia revisitar. Resplandeceram. Em três meses tinhamos lido a colecção toda. E a seguir a essa vieram outras, outras e outras. Não se passa um dia sem leitura em voz alta. Quando estou fora de casa, leio via skype ou deixo um capítulo gravado ou é o António que lê via skype. Há livros pequenos que gravo e mando por whatsapp a primos e amigos pequenitos. A intimidade do Vasco com os livros passou de inexistente para gigante (a do António sempre foi grande), com ele que ainda não sabe ler, acontecem em alguns dias três ou quatro momentos de leitura a pedido dele. Dada a exiguidade do espaço para mais livros na nossa casa, deixámos de comprar: somos todos leitores inscritos na Biblioteca Municipal Almeida Garrett e vamos lá uma vez por mês buscar uma braçada - neste momento temos dezasseis livros em casa - de livros para o mês. Todos adoramos ir lá. As empregadas são umas pérolas, uma delas, a Dr.ª Adelaide devia ser condecorada por serviços prestados à Cultura: sai de trás do balcão para dar um beijo aos miúdos e conversar um bocadinho, dá conselhos, conta coisas. Tem uma postura e um aspecto que me lembram sempre uma espécie de madrinha da Cinderela e o Vasco conhece-a porque passa na escola dele a cada duas semanas a bordo do bibliocarro, ele próprio uma instituição. É um autocarro adaptado a biblioteca itinerante pela Câmara do Porto, que leva lá dentro a Dr.ª Adelaide e um motorista, o Sr. Ilídio, que também é uma pessoa que trabalha com amor.

OK, perdi-me na minha própria torrente (acontece-me muitas vezes nas aulas), eu ia só postar aqui um vídeo. Adiante. Nesta momento estamos a ler com todo o interesse esta colecção (de que para dizer a verdade já estou um pouco farta mas o que fazer? Eles adoram ''a gargalhada rouca do Orlando'').

Tinha planeado o Tom Sawyer para as férias mas o António vai passar uma semana fora e não é muito prático, acho que fica para quando as férias acabarem. Em vez disso, vou ler ao Vasco este livro, recém-chegado da biblioteca e que é a cara dele e menos do irmão. Irmão esse que anda interessadíssimo nesta colecção e a lê a bom ritmo.

Amo - é mesmo amor - assistir ao espanto dos meus filhos quando vêm o seu reflexo numa personagem ou a sua perplexidade diante de um comportamento que não compreendem.

Tenho 300% de certeza de que este hábito dará frutos, ainda que não saiba de que natureza e tenho muitos planos para o fazer evoluir. Por agora, sei apenas que nos faz muito felizes.

 

Subscrevo tudo o que é dito no vídeo abaixo. E com esta me vou.

 

 

 

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3 comentários

De Bruxa Mimi a 12.04.2017 às 20:28

Ler em voz alta aos miúdos também me dá prazer, tanto na escola como em casa. E sim, é uma atividade que dá frutos.
Há uns tempos a mãe de um aluno (na altura no 2.º ano de escolaridade) dizia-me que era muito difícil pô-lo a ler, ele não queria... Conversámos um bocadinho e duas coisas ficaram claras (porque assumidíssimas pela mãe): nem a mãe nem o pai tinham hábitos de leitura, não havia livros em casa e, quando ele era mais pequeno nunca lhe tinham lido uma história. Portanto, relação com os livros não era coisa que ele tivesse, exceto pelos que tinha na biblioteca da sala de aula (e da escola) e que eu ia lendo regularmente, desde o 1.º ano.

De titi a 14.04.2017 às 01:35

Fiquei curiosa sobre a continuação dessa história... Houve mudança nos hábitos?

De Bruxa Mimi a 14.04.2017 às 14:32

Havendo uma biblioteca municipal mesmo ao pé da escola, eu sugeri que arranjasse um cartão de membro (pelo menos) para o filho, para ele poder requisitar gratuitamente os livros que mais lhe chamassem a atenção. Assim, não precisaria de gastar dinheiro (não me parecia que houvesse dificuldades a esse nível, mas nunca se sabe e achei por bem dar uma sugestão prática e económica) e facilmente poderia, depois das aulas, passar na biblioteca com ele e tratar do assunto.
Não tenho certeza, mas acho que a mãe não seguiu o meu conselho - pelo menos não me disse nada a esse respeito, e ela era uma mãe que para falar estava sempre pronta (a dificuldade era terminar a conversa).

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